Coração Silenciado
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Filme “Graças a Deus” de François Ozon

Algumas notas sobre o filme

by 7Margens | 15 Mar 2022

Imagem do filme Graças a Deus, de François Ozon

Em modo de tríptico

1. Do cineasta François Ozon

Disciplina de fidelidade aos factos

Recolhendo os testemunhos das vítimas do padre Preynat, traçando o seu percurso, colidindo sistematicamente com a conspiração do silêncio da Igreja, o cineasta procurou a disciplina da fidelidade aos factos. Os advogados do padre Bernard Preynat pediram a interdição do filme, mas o cineasta afirma que o seu filme não inventa nem diz nada que não seja do domínio público. Então porquê ver este filme? Ozon diz que não é somente uma enunciação de factos; trata-se da busca da verdade das vítimas (mudando-lhes os nomes) através dos próprios atores.

Homens que choram

A narrativa é dividida em três grandes capítulos, contendo cada um uma vítima por personagem principal. Ozon imprime um ritmo para melhor sublinhar os sofrimentos, as lutas das vítimas para que se fizesse justiça sobre um passado insuportável. Ele diz: «Queria mostrar homens que choram». Portanto, o ponto de partida seria fazer um filme sobre a fragilidade masculina. Homens que ele quis tocar na sua carne, como fortalezas aparentemente robustas e impermeáveis, homens que traziam dentro de si uma tragédia de infância, um silêncio imposto, uma infância feridaÉ bem neste quadro de homens feridos, esta virilidade fragilizada, moderna, que Ozon ausculta com uma acuidade impressionante. 

Fazer estalar o verniz

Descobrimos também através da descrição da sociedade burguesa lionesa católica (sem cinismo nem ironia) a ocasião para Ozon fazer estalar o verniz desta classe, de onde ele é proveniente, que tanto aprecia abanar. E também fazer estalar o verniz da própria Igreja.

2. Das personagens 

Melvil Poupaud como Alexandre em Graças a Deus, de François Ozon

Três personagens de meios sociais e culturais completamente diferentes. Três modos de gerir uma ferida… Três modos de quebrar o peso do silêncio…

Palavra feita silêncio mortífero

A narrativa é atravessada por uma intensa relação epistolar entre Alexandre (Melvil Poupaud) e os representantes da Diocese de Lyon. Alexandre pertence a uma família católica burguesa dessa mesma cidade, uma família que não se sente ameaçada pela memória reavivada das agressões que vitimaram Alexandre, nem pelas manobras da diocese para evitar o escândalo. Uma família regrada que contorna a situação. Mas Alexandre encara a situação de frente, fala da ferida, das agressões de que foi vítima. Procura abrir um caminho nesta falha. No entanto a palavra permanece bloqueada, reduzida ao silêncio e ao segredo. A verdade não pode emergir; faz-se ouvir unicamente através de uma voz-off. Alexandre esbarra na opacidade do sistema eclesiástico. Diante de uma palavra que diz a verdade, a Igreja responde apenas com um silêncio mortífero.

Da Palavra íntima à Palavra coletiva

Entremos agora na desordem em François (Denis Ménochet). Procurou colocar uma pedra na ferida, abafou as lembranças das agressões até que as fundações da sua existência foram sacudidas pelas démarches de Alexandre. Furioso, cáustico, tem dificuldade em ajustar a sua raiva às necessidades dos procedimentos. Parece ter-se esquecido e libertado de tudo aquilo, mas percebemos finalmente que cobriu de um véu o traumatismo que o habitava. No entanto, depois a palavra se transforma em arma. Ela exuma do passado ferido a verdade enterrada. As cartas da mãe de François tornam-se prova. O caso estoura e com ele a palavra se liberta. Primeiro, o espanto diante da ferida que se torna comum. O privado torna-se público. A tragédia individual transforma-se em combate coletivo. E a força coletiva transcende o individual.

Palavra feita arma libertadora

Emmanuel (Swann Arlaud), a última figura deste tríptico, deixado à deriva pelos danos causados pela agressão sexual na infância, feridas que se tornam crónicas, espera que a luta coletiva criada por Alexandre e François o ajude a reconstruir-se. Se os outros dois conseguiram reconstruir a sua vida adulta relativamente estruturada, Emmanuel é incapaz de se emancipar do traumatismo. Os estigmas ainda visíveis envenenam a sua vida íntima. No entanto, foi capaz de falar dela.

3. Da Igreja

Abusos de menores na Igreja é o tema de Graças a Deus, de François Ozon


Contraponto entre poder (início do filme) e fraqueza

O filme inicia com a figura simbólica do peso e poder da Igreja na pessoa do cardeal Barbarin. Podemos também constatar até que ponto o mecanismo de silenciamento da Igreja se reproduz, às vezes, até mesmo no seio das famílias. Por medo do escândalo ou força do tabu, é todo um equilíbrio social que vacila. Durante anos, é primeiro para a diocese que as vítimas e suas famílias se voltam antes de procurar os tribunais. Ozon disseca com lucidez uma paisagem social na qual a instituição eclesiástica exerce um papel fundamental que suplanta a autoridade moral do Estado.

«Não fazemos isto contra a Igreja, mas pela Igreja»

«On ne fait pas ça contre l’église mais pour l’église», explica Gilles (Éric Caravaca), um dos fundadores da associação. A figura do P. Preynat assombra o filme, verdadeiro contraponto com a figura simbólica desses primeiros segundos do filme. Vemo-lo silencioso nos flashbacks que põem em cena as agressões do passado num ambiente estival. Parece um ser desorientado, entregue a si mesmo, apresentado como “doente”. As agressões do padre Preynat cobrem um período pelo menos de trinta anos, com a cumplicidade passiva da Igreja silenciosa. O realizador quer fazer-nos tomar consciência da amplitude abissal de uma tal impunidade. O número de vítimas é vertiginoso, as suas repercussões terríveis.

«Graças a Deus que a maioria dos factos está prescrita»

Vemos no filme temporalidades diferentes. Uma vez que a palavra é libertada numa vítima, ela é impulsionada a uma espécie de urgência de ação que não acontece na mesma temporalidade que a temporalidade judicial e mesmo religiosa até à instrução interna. Há um confronto entre estas diversas temporalidades com estes temas da prescrição, do perdão, da punição, que atravessam o filme. Ressalta a incompreensão pouco misericordiosa da hierarquia católica e a pressa de um perdão ilustrada na cena da oração do Pai Nosso de “mãos dadas”.

Nota 1: La Croix: «Um filme útil, mas lamentamos que o cineasta não tenha procurado entrar com o mesmo rigor na complexidade da resposta da instituição, fazendo do cardeal Barbarin um personagem secundário e desencarnado.» (Céline Rouden)

Nota 2 : O filme evoca também a negação de certas vítimas, como alguns pais, o sentimento de culpabilidade dos que não falaram, os debates entre as próprias vítimas sobre o sentido da sua ação ou o lugar do perdão no seu processo.

Três palavras do Evangelho, três questões:

1. «A verdade vos libertará.» (Jo 8, 32)
Que fazemos das nossas feridas? Das vidas duplas? Porquê o medo da verdade se é a verdade, de facto, que liberta?

2. «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso.» (Lc 6, 36)
O que significa ser sinal da misericórdia do Pai? Qual o sentido e o processo do perdão?

3. «Mas, se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar.» (Mt 18, 6) (Evangelho do dia)
Que Igreja? Igreja sem Cristo? Cristo sem Igreja? Igreja com Cristo, por Cristo e em Cristo?

Texto lido na apresentação do filme Graças a Deus, em Braga, 24 de fevereiro de 2022

Graças a Deus (Grâce a Dieu), 2018
de François Ozon
com Melvil Poupaud, Denis Ménochet e Swann Arlaud.
Para maiores de 14.